Os quatro sentidos da vida

Outro dia, estava aguardando meu filho em um teste psicotécnico para habilitação. Ele está nesta fase dos 18 anos, na qual o ingresso na vida burocrática se torna inevitável. Enquanto o esperava, tive mais de uma hora para refletir sobre algo que há muito pairava em minha mente; O significado da vida. Pra que vivemos? Afinal, ver os filhos crescendo e caminhando para a vida adulta, com todas as suas possíveis glórias e frustrações, faz a gente pensar sobre isso, sobre o pra quê disso tudo. Tenho total consciência que esta pergunta já foi explorada por mentes muito mais sagazes e capazes que a minha, porém, a despeito disso, minha cabeça teima em elaborar sua própria resposta, exercendo seu direito biológico de ser única. Bem, andando pelas ruas, consegui pensar em quatro dimensões do significado da vida que me satisfizeram como resposta: Experiência; Permanência; Legado; Transcendência.

Experiência seria aquela dimensão mais básica do significado da vida, que dividimos com todos os seres vivos deste pequeno planeta, neste pequeno sistema solar. É o viver pela graça de existir. A vida pela beleza de experimentar a luz do sol, a água e o alimento. A experiência de viver só e em comunidade, algo que os animais fazem, inclusive, melhor do que nós. Pra ser sincero, creio que a despeito da nossa evolução racional, esta dimensão da experiência da vida seja a que mais nós usufruímos, assim como os animais. No final da história, apesar de nossos papinhos intelectuais, nós investimos a maior quantidade de horas dos nossos dias para beber, comer, rir, chorar, festejar e etc. Creio que esta dimensão é a base da pirâmide de significados da vida. A mais básica e a mais exercida por todos que andam, voam, nadam ou rastejam.

Permanência seria aquela dimensão na qual a vida encontra seu significado na mais genuína insistência em viver. É uma dimensão também compartilhada por nós, humanos, com todos os outros seres vivos, até mesmo os mais simples como os vírus. O que um vírus quer a todo custo? Sobreviver e perpetuar sua vida, sua espécie e pra isso ele se infiltra, se acomoda e se multiplica incansavelmente. Não é exatamente isso que nós, Sapiens, também fazemos? Experimentamos a vida, o beber, o comer, o rir e o chorar e, apesar de todas as mazelas, gostamos da experiência e desejamos permanecer. Fazemos isso procriando e criando novos seres semelhantes a nós. A permanência nos move à procriação e à proteção pessoal e coletiva, nos move às alianças, nos move ao desenvolvimento de recursos e tecnologias. Ela nos move ao futuro pelo simples fato de que repugnamos a possibilidade de extinguir. Assim, como o a presa foge da faminta leoa, fugimos dos perigos porque queremos permanecer. Assim como a leoa protege seus filhotes com a vida, protegemos os nossos para que eles vivam um tempo à frente dos nossos dias na Terra.

Legado, penso eu com certa dúvida, seria aquela dimensão que finalmente nos diferencia dos outros seres vivos deste planeta. Nos diferencia porque envolve uma consciência individualizada e também uma capacidade não só de comunicação, mas também de registro do que é comunicado. Legado é o encontrar significado na própria capacidade de deixar ensino para aqueles que permanecem para além de nossa própria existência. Por isso, creio eu, que o legado é algo estritamente sapiencial. Essa vontade e essa capacidade de deixar ensino para os próximos, que permite um aprimoramento da vida em camadas sobrepostas de conhecimento, é algo que nos resume como espécie. Esse registro e essa comunicação privada, pública, familiar, nacional e mundial. Essa obstinação por ir além do puramente biológico, pra além da experiência e da permanência, conseguir pintar na parede da caverna a sua própria história, suas vitórias, suas derrotas e principalmente seus aprendizados. O legado é esta dimensão de esperança na própria capacidade de ajudar as próximas vidas com aquilo que aprendeu e assim ser útil, pra além de seus finitos dias.

Transcendência seria aquela dimensão que é a ponta da pirâmide dos significados. A mais alta e também a mais escassa. A mais alta porque ela é um salto humano para além de sua pequena estatura biológica. É o desejo genuíno de crer que nós somos mais do que um motor de carne, ossos e sangue. É a vontade de acreditar que há algo em nós que não perece e que nos liga há algo maior que acreditamos também não ser perecível. A Transcendência é essa luz na nossa mente que quando se acende, a chamamos de alma. Essa alma que quando percebida diz a nós mesmos que somos mais que um conjunto sincronizado de fluídos autônomos. Essa alma que nos diz que deve haver algo além dessas savanas, florestas e desertos. Algo mais puro e eterno, algo capaz de tomar essa alma nas mãos e a levar pra dentro de si. A transcendência como significado, nos move pra busca desta luz eterna que pode preencher nossa existência de paz e glória. É também a mais escassa das dimensões, pois apesar de tantas religiões, a busca pela transcendência tem sido sufocada por ritos e tradições que em quase nada tocam a alma humana, muito menos o Ser buscado. Pouquíssimas horas de nossas vidas são, de fato, dedicadas a este significado tão alto da nossa espécie. Sufocamos, dia a dia, nossa alma com o fardo dos significados ordinários.


“Tenho visto o fardo que Deus impôs aos homens. Ele fez tudo apropriado ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive. Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus. Sei que tudo o que Deus faz permanecerá para sempre; a isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus assim faz para que os homens o temam.”
Eclesiastes 3:10-14

3 comentários em “Os quatro sentidos da vida”

  1. Que texto maravilhoso!

    Faz alguns meses que tenho pensado muito sobre isso. Talvez as mudanças de fase em minha vida, minha entrada e amadurecimento na vida adulta, me fazem pensar muito sobre o legado.

    Todas as escolhas, grandes ou pequenas, que fazemos, nos levam a essa pergunta: “qual será o legado que quero deixar?”. Ainda estou nessa fase de refletir sobre, mas aos poucos vejo que minha vida está mudando de fase tão rapidamente e que muitas escolhas se tornam permanentes.

    É maravilhoso refletir sobre essas coisas em um mundo onde não existe tempo para a reflexão.

    Obrigada por compartilhar com a gente, amigo!
    Me edificou muito.

    Um abração.

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