Acalásia

Este blog é antes de qualquer coisa um diário público da minha vida. Sendo assim, devo registrar aqui minhas dores e sabores. Hoje, vivo uma dor. Depois de muitos meses passando apuros com acidez e refluxos, fui diagnosticado com Acalásia. Parece o nome de uma planta bonita, mas não é. Trata-se de uma disfunção do esôfago na passagem para o estômago. Isso tem me impedido de me alimentar. Já perdi uns 10 quilos e estou aguardando o agendamento da cirurgia para reparar este problema. Por isso, aproveito para pedir sua oração por minha saúde.

Nada é mais forte do que a privação de algo pra gente entender o quanto aquilo é precioso. Estar com fome, diante do alimento e não conseguir comer é angustiante. Por isso, tenho refletido sobre tantas coisas que por termos acesso a tanto tempo, desdenhamos. A gente come como se fosse simples ter e poder comer. A gente bebe como se fosse algo permanente e imutável. A gente deita na cama como se ela sempre fosse estar ali. É, ao mesmo tempo, o benefício e o prejuízo da fartura. Ter tanto e por tanto tempo que se perde a noção da preciosidade.

Mas não é só de coisas materiais. Pela fartura, também desdenhamos do afeto das pessoas que amamos. Nosso pai, nossa mãe, nossa esposa, marido e filhos estão ali, diante de nós, quase sempre. Então, lidamos com eles como se fossem eternos. Valorizamos suas chatices diárias e pormenorizamos toda beleza e privilégio de conviver com eles diariamente. Estamos fartos de afeto e esta é nossa benção e também nosso prejuízo. Deus em sua soberana sabedoria sabe disso e, por isso, muitas vezes nos priva, para que as escamas da fartura caiam e nos permitam ver.

Por falar nisso, também fazemos isso com Ele. Temos diante de nós, ou melhor, em nós, o Espírito Santo e com ele todos os recursos de graça que o Pai nos ofereceu por Jesus. Porém, muitas vezes também desdenhamos de tudo isso e vivemos como céticos e infiéis. Não oramos, não louvamos e não nos alimentamos com a santa palavra. Talvez, por isso, em algumas ocasiões Deus parece se ausentar. Pra nos livrar do prejuízo da fartura, da petulância de acharmos que ele é um servo que está ao nosso serviço apenas quando precisarmos dele. As vezes, Ele nos assusta com seu silêncio para percebermos o vazio de sua ausência.

A Acalásia, assim como muitas outras enfermidades, são pedagógicas. Elas nos ensinam a ser como as plantas que sempre buscam mais e mais a profundidade do solo e mais e mais a claridade do Sol. É assim que eu quero ser enquanto tiver vida, pois é isso que a privação sempre me ensinou. Mais e mais da vida, mais e mais amor, mais e mais de Deus, pois a vida é em si essa busca.

Transformai-vos!

6 comentários em “Acalásia”

  1. Exatamente Lucas. Temos a tendência de “pormenorizar’ aquilo que teoricamente temos sob controle. Muito oportuna a sua reflexão! Que a graça e a bondade de Deus restabeleça a sua saúde.

  2. Meu amigo, suas palavras são maravilhosas. Desculpe-me se não tenho palavras e adjetivos para lhe dizer o quanto as suas palavras são magníficas!!! Também sou portador de Acalásia. E também acredito que temos essa doença apenas por motivos pedagógicos. Não um castigo divino. Mas apenas um sofrimento para que possamos evoluir, como espíritos, tanto na moralidade quanto na intelectualidade. A vida encarnada é apenas uma escola. Aprendemos a sermos melhores, pessoas do bem, da generosidade, caridade, da ausência de orgulho e egoísmo; apenas fazendo aos outros o que queremos para nós mesmos. Apesar do grande sofrimento que a Acalásia proporciona, ela ao mesmo tempo nos modifica. Passamos a dar valor a essência e não às futilidades, materialidades e leviandades da vida. Aprendemos a amar ainda mais as pessoas, pois somos ajudados. Aprendemos que somos frágeis e que a humildade deve imperar. Fique com Deus, meu irmão!! Estamos apenas aprendendo e evoluindo espiritualmente. Lembre-se que Deus sempre nos consolará, diante de qualquer situação e que, sendo assim, sempre teremos o seu colo para eliminar o desespero. Deus lhe abençoe!!

      1. Oi, Lucas! Tudo bem com você? Eu estou bem e você, já fez a cirurgia ou algum tratamento para aliviar os sintomas??
        A minha Acalásia foi diagnosticada em meados e final de 2018 e fui operado em Janeiro de 2019. Fiz a Cardiotomia de Heller com uma Fundoplicatura, para evitar o refluxo. Tive a sorte mas, principalmente, a misericórdia de Deus em não ficar muito tempo com Acalasia evoluindo sem a cirurgia. Já ouvi relato de pessoas com 10 anos convivendo com a doença, sem diagnóstico (ou) sem tratamento e/ou cirurgia. Com a cirurgia que fiz em 2019, os sintomas melhoraram muito. Foi feita uma secção (corte de aproximadamente 9 cm na parte externa entre o esôfago e o estômago – 6m de corte na musculatura do esôfago e 3 cm de corte na musculatura do estômago, envolvendo, certamente a cárdia que já estava “travada”, impedindo a descida de líquidos e alimentos. Perdi totalmente o peristaltismo, desenvolveu o megaesôfago, então me alimento bem devagar, mastigando bem; e graças a Deus existe a gravidade, que empurra tudo para o estômago. Além disso, depois de comer, espero um pouquinho para não engasgar e bem bastante líquido para ajudar a empurrar tudo para o estômago, sem que o líquido suba e cause aquela impressão que temos (sem a cirurgia) de sufocamento. Eu fiz a cirurgia no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo (pelo Iasmpe). Sou servidor público estadual e tive o privilégio, a misericórdia divina de ser abençoado e ter um cunhado médico com relacionamento com a equipe do Dr. João Francisco e Dr. Adriano que coordenam os residentes e a parte de gastro do Hospital do Servidor Estadual. Então eu fiz muitos exames (Endoscopia, EED – Esofagograma – Raio X Contrastado e Manometria Esofágica, Tomografia Computadorizada, que detectou identificou também dilatação no esôfago), foi detectado Acalasia Grau II e já fui operado em 17/01/2019. Hoje estou bem melhor. Os sintomas aliviaram muito. Não tem cura, você sabe, infelizmente. E a deglutição continua comprometida e não é restabelecida 100% (mesmo por que eu perdi o Peristaltismo total no esôfago), mas todos esses sintomas aliviam muito com a cirurgia, basta ter um pouco mais de paciência na hora de comer . 🙂 E você, como está?? Já fez o tratamento ou cirurgia, precisa de alguma ajuda?? Um grande abraço, muito prazer em conhecê-lo e que Deus te abençoe!!

        1. Olá Marcos! Agora estou bem, graças a Deus.
          Minha trajetória foi muito semelhante a sua. Fiz a mesma cirurgia, porém, tive o agravante de ter passar por uma segunda cirurgia para reparar um problema no intestino, fruto de uma sequela de um acidente de carro na mocidade. Perdi 15 quilos no total, fiquei muito fraco, mas hoje estou bem e na mesma situação com a alimentação. Sou grato a Deus pelos recursos médicos e pelo acesso que tive a eles. Foi um prazer te conhecer também. Deus te abençoe sempre.

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