Desespero e Deslumbre

Tem, sim, o desespero e como tem! Essa permanente sensação de que a vida pode ruir a qualquer segundo. A própria vida e também a de quem amamos. No último dia do ano passado fui diagnosticado com uma trombose na perna esquerda, consequência das cirurgias que tive que passar. Meu Reveillon ficou nebuloso diante da realidade de mais um problema de saúde. Me vi mergulhado em um silencioso desespero. A vida que, nos momentos de saúde e alegria, parecia permanente e inabalável, naquele momento mostrava sua circustância real que insistimos rejeitar: frágil e transitória.

Não era a primeira vez que eu provava desta constatação que tanto evitamos, mas desta vez, talvez pelo assombro da Pandemia, somado a fragilidade do meu corpo, o desespero gélido tomou conta do meu coração. O horário da ceia de Reveillon se aproximava e eu estava ali no sofá, me sentindo na travessia de uma corda bamba que poderia se romper a qualquer segundo.

Uma realidade que não é só minha, mas é sua também e de todos que estão ao nosso redor. A vida está sempre por um fio, independente de nosso estado de saúde ou de haver ou não uma pandemia em curso. Foi aí que eu finalmente concordei com as palavras aparentemente mórbidas de Eclesiastes ao dizer: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!” Ec 7:2.

A constatação do destino comum de todos é um banho necessário de realidade, não só para doentes e idosos, mas também para jovens e sãos. A aceitação da linha tênue e a decorrente angústia e desespero que ela nos traz é algo necessário e que contém o real poder de transformar nosso coração: “A tristeza é melhor do que o riso, porque o rosto triste melhora o coração.” Ec 7:3.

Melhora sim! Melhorou o meu, pois me levantei do sofá e fui cear com minha família. Ceia mesmo! Com pão e com vinho, como nosso Mestre nos ensinou. Porque se existe o desespero, é fato que há também o deslumbre ordinário de cada dia. A benção de se deleitar com as pequenas coisas que a vida proporciona. Aquilo que gosto de chamar de PROMPT pulsante da vida. Esse entendimento constante de que cada movimento, cada gesto, cada fala proferida e ouvida. Até mesmo cada chatice, cada problema, fazem parte deste Prompt que não tem antes, nem depois, só esse AGORA que o Pai nos proporciona e que carece dessa fúria para viver com prazer, mesmo entre pandemias, cirurgias e tromboses.

É deste jeito que tenho vivido; entre o desespero e o deslumbre! Pois, como diz o velho Gandalf, na jornada do pequeno Hobbit: “São os pequenos atos diários, as pequenas coisas de gente comum que tem a verdadeira força de nos livrar do horror.

Transformai-vos!

5 comentários em “Desespero e Deslumbre”

  1. Amei, Lucas! E mais uma batalha vencida, agora já de alta! Louvo a Deus por sua vida!
    Acabei de ver o filme Nomadland e tem muito a ver com essa fragilidade da vida….

    1. Leonildacanto Pinheiro Pinheiro

      Amém Lucas pelo exemplo de vida que tem passado .Estamos vivendo este medo incerteza mais com fé pois a vida e essa corda bamba

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