O argumento Morpheus

Outro dia fiz questão de assistir novamente o filme Matrix, clássico do final dos anos 90 que foi um marco cinematográfico de mudança do século XX para o XXI. Numa das cenas mais emblemáticas deste filme, o “profeta” Morpheus oferece duas pílulas ao Neo, que precisava decidir entre a pílula azul que o manteria adormecido dentro da realidade virtual chamada Matrix ou a pílula vermelha que o despertaria para a verdadeira realidade do mundo.

Me lembro que este argumento de Morpheus foi usado por muitas igrejas como uma espécie de parábola para a evangelização. Algo como: desperte para a realidade sobre sua vida de pecado! Desperte para a Cristo Jesus, o caminho, a verdade e a vida.

Hoje, após avançarmos 21 anos no século XXI, percebo que o argumento de Morpheus continua sendo usado, porém, agora por uma diversidade de interpretações da realidade baseada em diferentes tipos de “matrix” narrativas, também conhecidas como bolhas de informações. É impressionante a quantidade de Morpheus que nos oferecem uma ampla gama de “despertamentos”. Os Morpheus estão em todos lugares, na família, no trabalho e também na igreja, jogando na nossa cara que aquilo que entendemos como realidade é, na verdade, uma distorção da mídia, da ideologia, da mente e etc.

Neste contexto, muitos migram de realidade a cada mês. Ontem a vacina era nociva, hoje ela é segura. Ontem o remédio era seguro, hoje não é recomendado. Ontem era mentira, hoje é verdade. Ontem era uma ilusão, hoje é realidade. Tudo depende da pílula que você escolheu tomar dessa vez.

Entretanto, meu ponto de contato é com meus irmãos na fé que também estão mergulhados neste cenário. Como nós, cristãos, devemos nos portar neste contexto de múltiplas matrizes de realidade?

Na carta de Paulo aos Efésios, o apóstolo disse que Cristo designou alguns de nós para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e mestres. Disse também que estes líderes foram designados para que a Igreja alcançasse a maturidade e que não fosse mais levada por ventos de novos ensinamentos. Diante disso, eu me pergunto: Será que as lideranças das Igrejas cristãs estão cumprindo este papel dado por Cristo? Será que realmente estamos sendo guiados a uma fé lúcida que nos impede de seguirmos Morpheus que nos abordam de todos os lados?

Infelizmente, é nítido que não. O que vemos é uma grande quantidade de líderes que nem mesmo percebem este cenário atual. Muitos daqueles que percebem, resolvem “respeitar” a falta de lucidez dos irmãos para não precisar enfrentá-la. Poucos resolvem falar sobre este problema atual e as danosas implicações que está causando, principalmente com relação ao testemunho do povo de Deus para a atual geração. O desafio de viver uma fé lúcida sempre foi enorme em toda história da Igreja Cristã. Porém, em algumas épocas, grande parte dos cristãos, infelizmente, foram levados por ventos de ensinamentos que colocaram a Igreja em maus lençóis. Penso que este é um momento.

Mas como escapar do argumento Morpheus? Como não ingerir essas pílulas?
A resposta, de tão óbvia, parece difícil de lembrar: Crer somente em Jesus.

Sei que parece só um clichê evangélico, mas o que quero enfatizar é que a Igreja, ao crer apenas em Cristo, como consequência deveria se tornar cética quanto a todas as outras crenças. Isso significa que ela não deveria se iludir com nenhuma outra liderança, e assim não se deixaria levar por nenhum outro movimento. O cristão, portanto, se tornaria lúcido sobre toda oferta de verdade à sua volta, pois não encontraria sua esperança em nenhum outro Neo, de qualquer outra Matrix. Mas não apenas isso. Esta Igreja também não ficaria alienada em sua muralha cultural. Pelo contrário, este ceticismo cristão, esta falta de crença em tudo que não é do Reino de Deus, levaria o cristão a ser o indivíduo(a) mais analítico de toda sociedade, pois em mais nada ele(a) deposita seu coração e sua paixão, além de Cristo Jesus.

Esta é minha oração e meu ponto de atenção atuais: Pedir a Deus e agir de modo que a Igreja consiga ser lúcida e crítica para discernir a realidade no meio de tantos Morpheus cheios de pílulas da verdade a nos oferecer.

Transformai-vos

2 comentários em “O argumento Morpheus”

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