O Brasil tá vendo!

Você, assistindo Big Brother?

Essa é a pergunta que já ouvi diversas vezes, desde que decidi assistir ao BBB este ano. Eu só havia assistido ao primeiro BBB em 2002 e depois me distanciei não só do BBB, como também de tudo de bom e ruim que engloba TV aberta brasileira, justamente porque nesta época mergulhei na praia da Internet que acabara de explodir no Brasil. Porém, o que me levou de volta à TV foi uma semana de internação no hospital, onde assisti a tal da Rede Globo dia e noite. Apesar da chatice monumental dos comerciais repetidos, senti uma nostalgia ao assistir a novela Flor do Caribe que resgata um cheirinho daquelas novelas da minha adolescência nos anos 90.

Foi aí que me dei conta de que entre o adolescente dos anos 90 e o adulto do século 21 existem dois fatores que se somaram para me distanciar da TV. Primeiro, percebi que havia em mim um pseudointelectualismo de quem considera a televisão aberta uma mídia para “povão”, como se eu não fizesse parte deste coletivo popular brasileiro. O segundo fator tem relação estreita com a fé evangélica brasileira, da qual faço parte e que nos últimos anos tem promovido uma verdadeira batalha pseudoespiritual, em especial contra a Globo ou Globolixo, como gostam de chamá-la.

Voltar a assistir uma novela me fez ver que definitivamente não quero pagar de intelectual de internet, muito menos participar de uma luta ideológica-moralista contra a tal Globolixo, luta da qual nunca fiz parte. Mais do que não fazer parte, sempre fui contra esta metodologia evangélica de muralha de proteção cultural, dentro da qual nos alienamos em nossa bolha de conteúdo e ainda ficamos de cima da muralha apontando dedos para os infames pecadores.

Assistindo a nostálgica novela, foi inevitável ver as incontáveis divulgações do BBB21 que me levaram à decisão de assistir o mais amado e odiado reality show do Brasil. Porém, para minha surpresa, o BBB21 tem se mostrado muito mais interessante do que eu poderia esperar. Como li ultimamente, esta edição tem sido uma verdadeira experiência antropológica da sociedade brasileira.

Logo nos primeiros episódios, o tal filho do Fábio Junior promoveu para todo Brasil um retrato do jovem-homem-brasileiro falido que se desculpa por ter nascido assim, “privilegiado”. Prova cabal de que há algo muito errado com a forma como estamos tecendo a atual masculinidade brasileira. Por sinal, eis um tema que colabora com a nossa voz evangélica, pois já temos apontado isso há um bom tempo, mas quando o fazemos, somos tachados de fundamentalistas, machistas e/ou sexistas. Entretanto, para minha surpresa, o Brasil viu a cena, transformou-a em Meme, riu dela e assim, a reprovou. Depois de alguns dias, as pautas identitárias tão presentes nas redes sociais, tomaram conta da casa mais vigiada. Os excessos conhecidos destas lutas, desta vez sem nenhuma maquiagem, foram televisionadas para todo Brasil que também viu e, sem rir, também reprovou.

O BBB21 tem sido um retrato reduzido de um Brasil que chega com seu superego todo sorridente e cordial, porém, depois de alguns dias se revela cheio de incoerências entre o discurso e a prática, como bem exemplifica o Rapper da casa. Mais difícil ainda é o Brasil que vigia a casa. Complexo, este Brasil é liberal e conservador ao mesmo tempo, a ponto de deixar os Brothers totalmente perdidos, enquanto repetem incontáveis vezes: O Brasil tá vendo! Mas a pergunta velada que essa exclamação faz é a seguinte: Que Brasil é esse que tá vendo? Que Brasis são esses que têm criticado, adorado, rejeitado e cancelado?

Ao meu ver, é essa a pergunta sobre a qual nós cristãos precisamos investir tempo e energia. É esta pergunta que me dá mais um motivo para assistir ao Reality. Tentar nos entender como povo que em parte repudia o BBB, em parte assiste e vota aos milhões. Tentar entender com o desejo de ser sal e não pimenta, neste caldeirão de modos de vida que é o Brasil, hoje. Tentar entender com o desejo demonstrado pelo Apóstolo Paulo ao se defender diante de Agripa:

Então Agripa o interrompeu: “Você acredita que pode me convencer a tornar-me cristão em tão pouco tempo?”.
Paulo respondeu: “Em pouco ou em muito tempo, peço a Deus que tanto o senhor como os demais aqui presentes se tornem como eu, exceto por estas correntes”.

Será que nós, evangélicos, ecoamos este pedido de Paulo a Deus? Será que realmente queremos, cedo ou tarde, que todos se tornem como nós, servos de Cristo? Será que pelo menos temos interesse em saber como vivem aqueles que pensam diferente de nós?

Particularmente, também estou me esforçando muito para entender o Evangélico Brasileiro, grupo do qual faço parte, mas continuamente me sinto no paredão.

3 comentários em “O Brasil tá vendo!”

  1. Parabéns Pedro, por sua coragem em expor com clareza suas convicções há luz das Escrituras.
    Ninguém é melhor ou pior porque assistem o BigBrother, por exemplo. Assim como diversas séries da Netflix, Amazon Prime…
    Vejo com tristeza irmãos em grupos de WhatsApp como “roda de escarnecedores”, se juntando em grupos para criticar outros irmãos que sequer podem se defender.
    Que a graça e paz do Senhor esteja com você.

    1. Obrigado Guto! A exposição tem um preço…rsrs
      Sigo perdendo alguns seguidores, mas não estamos aqui pra agradar público, certo?

  2. Pingback: Perseguido pela esperança - Ultimato Jovem

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