Sobre a Realidade e a Primavera

“Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.”
[…] Alberto Caeiro | Fernando Pessoa

Esse é um daqueles textos que escrevo pra mim, bem longe das técnicas atuais de copywriting pelas quais somos obrigados a escrever no tamanho e na forma que o leitor (público-alvo) gostaria de ler. Não! Este é um daqueles textos que escrevo para minha memória e reflexão íntima. Daqueles textos que debruço as mãos sobre o teclado para escrever devaneios longos na certeza de que poucos lerão até as últimas linhas. A escrita como forma de prazer pessoal. Talvez você pergunte, então, por que publicar? Bem, publico para registro e também como aquelas mensagens que eram colocadas em garrafas ao mar. Vai que alguém leia e se identifique. Vai que alguém leia e seja beneficiado, por exemplo, como eu fui ao ler este poema de Fernando Pessoa sobre a Primavera e a Realidade. Assim mesmo, ambas com letras maiúsculas, porque elas são gigantas. São instituições elementares muito maiores e duradouras do que nós, efêmeros humanos. Comparados a Elas, somos como aquelas nuvens de cupins que se aglomeram nas luzes da nossa casa, nos finais de tarde.

Tive a felicidade de me encontrar com este poema em um perfil no Instagram. Fiquei feliz de várias formas, primeiro por ver poesia no Instagram, depois por ver Fernando Pessoa ali e depois ainda por ver tudo isso na minha timeline, sinal de que minha curadoria de feed ainda guarda saúde e refrigério neste mundo ditado pelos algoritmos capitalistas. O poema veio como uma onda que pega a gente e joga de costas na areia da praia.

A REALIDADE NÃO PRECISA DE MIM

Nem a realidade, nem a primavera precisa de mim, nem de você. Porém, antes de entrar no tema, me permita dizer que normalmente não gosto de poesia. Eu gosto mesmo é de Fernando Pessoa, principalmente na pessoa de Alberto Caeiro. Aprecio em especial este apreço que o personagem demonstra pela vida posta. Gosto da maneira como ele aceita e se submete àquilo tudo que muitos tolos insistem em não se submeter: A tal da Realidade. Essa senhora imparcial que dita as regras do dia e da noite, da gravidade, do tempo, do ar, das águas e se mostra, acima de tudo, indiferente às nossas subjetividades filosóficas, amorosas, doentias e até mesmo teológicas. Ele não fala de Deus, não porque o desacredita, mas talvez porque já se entende tão pequeno diante desta Senhora Realidade, que dirá então deste Senhor Deus que a criou e a detém?!

Não! Caeiro limita-se a falar da Senhora e a farejar como um cão labrador, o prazer que ela nos proporciona. Gosto do prazer que o Alberto encontra nesta Senhora. Ele abaixa a cabeça e se encontra com o chão, com a terra, com a água, com as raízes e vai levantando o olhar aos poucos para vislumbrar as árvores com seus galhos, folhas e flores em contraste com o azul do céu. Caeiro não só aceita a realidade mas também encontra nela o prazer de quem se submeteu, de quem entende sua própria fragilidade e brevidade. Assim, ele limita sua “teologia” às coisas que vê, toca, cheira e sente. Ferindo egos, ouso dizer que Fernando Pessoa é o teólogo que fica no degrau da realidade, que não ousa passar deste degrau porque não se vê capaz. Entretanto, neste degrau ele brinca e se deleita com tudo que a realidade nos coloca e é aqui neste degrau que ele encontra a Primavera.

Esta outra Senhora que vai e que vem, apesar de nós, pra mostrar que a Realidade se renova com e apesar de nós. Fernando folga em saber que esta bela senhora virá de novo apesar de sua ausência e, com isso, o poeta se coloca em seu lugar de Pessoa que também passa, como tudo. Encontro no poeta lusitano o caminho para minha filosofia e teologia. O caminho da realidade e da primavera. O caminho de quem não ignora a Realidade do que está posto, sem excessos, nem deméritos sobre quem somos. O caminho de quem olha pra Primavera com olhar de farejador esperançoso, que olha para o que é novo e se renova. O caminho de quem vê Deus como arquiteto e regente destas duas nobres Senhoras: A Realidade e a Primavera.

“Todo o mundo com tudo o que há e ocorre nele, está
sujeito ao governo divino. O verão e o inverno, o dia e a
noite, os anos frutíferos e os não frutíferos, a luz e as
trevas – tudo é Sua obra e tudo é formado por Ele.”

Herman Bavinck

Transformai-vos!

Foto por Daniel Frank

1 comentário em “Sobre a Realidade e a Primavera”

  1. Lindo, lindo porque é verdadeiro, tudo é obra dele, porque por ele, pra ele são todas as coisas! Sim, é verdade, nada daqui é sobre nós, tudo daqui é sobre ele!

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