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Vida tênue

Há algum tempo, coloquei na cabeça que deveria redigir um pequeno é útil documento para a Ju e os meninos, caso alguma coisa ruim acontecesse comigo. Um acidente ou incidente que me levasse a um período de invalidez ou até mesmo à morte. Bem ou mal, a tal pandemia me empurrou a transformar esta ideia em realidade. Escrevi o tal documento de forma bem prática e descontraída, de forma que possa ser útil e motivador para eles. Aquelas coisas chatas que temos dificuldade de lembrar no momento do luto, mas precisamos lembrar; telefones, contatos, senhas, apólices e por aí vai. Além disso, também escrevi as famosas últimas palavras que parecem sempre ficar faltando para quem fica. O problema é que após redigi-lo, não sabia como contar a eles de uma forma que não parecesse tão dramática ou até mesmo paranóica. Pensei, repensei, enrolei, procrastinei e acabei deixando o documento cair no esquecimento.

Poucos dias depois disso, fui parar no pronto socorro por conta das minhas sequelas no intestino. Mais uma obstrução intestinal me levou à internação, jejum, sonda nasogástrica e a velha espera de uma cura por meios clínicos, para evitar cirurgias. Uma narrativa que já conheço há quase 20 anos. No meio de uma pandemia global, lá estou eu no hospital, com o computador que a Ju me levara, contendo o tal do documento e uma angústia enorme por não ter contado a eles. Me desesperei por entender que contar ali seria por demais dramático. Ao mesmo tempo, queria muito que eles tivessem em mãos aquelas informações úteis.

Enfim, descansei em Deus e esperei. Após 5 dias de internação, restabeleci minha esperança ao ver meu corpo reagir ao tratamento. Tive alta e junto com ela a oportunidade de contar a eles, inclusive, de modo cômico. Ao contar, a Ju me disse que pensou nisso durante a semana em que estive internada e ficou aliviada ao saber que eu tinha preparado um documento. Rimos um pouco e respiramos aliviados pela tempestade ter passado mais uma vez.

Conto esta história íntima e tragicômica com o objetivo de expor o óbvio que ignoramos diariamente: A vida é tênue. Algumas mais do que as outras, mas todas são. Essa é uma das mais expressivas lições que esta pandemia tem gritado aos quatro ventos: A vida é tênue. Entretanto, também conto esta história para relembrar que nós cristãos deveríamos ser as pessoas mais preparadas para partir. As pessoas mais conformadas com a verdade de que esta vida é um sopro, como diz Tiago em sua carta direta e reta:

Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Em vez disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. Tiago 4:13-15

Nós, que professamos a Cristo, deveríamos ser também as pessoas mais empenhadas na promoção da vida. As pessoas mais preocupadas com o bem comum. As pessoas mais ocupadas com as mentes e os corações daqueles que nos cercam. As pessoas mais engajadas na comunicação da Verdade, que é Cristo Jesus, nosso Salvador e Senhor. Nossa partida e nosso Norte.

É preciso saber viver e é preciso saber partir.
Como insiste em dizer minha mãe: C”est la Vie”

Transformai-vos!

2 comentários em “Vida tênue”

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