O calvinista que ainda não sou

O calvinista que ainda não sou

Neste mês, uma igreja presbiteriana do sul do país declarou (de púlpito) apoio à criação do novo partido político do atual presidente. Muitos presbiterianos mostraram sua indignação pelas redes sociais. Muitos pediram que a Igreja Presbiteriana do Brasil punisse essa igreja, pois faz parte da tradição calvinista não misturar fé com política. Será? A história, infelizmente, parece mostrar o contrário. Os últimos anos nos mostraram que lavamos as mãos institucionalmente, enquanto nos inflamos e nos misturamos com a política na informalidade dos posts e comentários e na boca pequena das conversas de final de culto. Sendo assim, fica difícil pra denominação punir aqueles que declaram oficialmente sua posição política, uma vez que esta se omitiu de ir contra todo este fomento orgânico e informal.

Nasci na igreja presbiteriana dos anos 80 e posso dizer que o processo de me tornar calvinista tem sido um processo lento que ainda está em desenvolvimento. Somente nos últimos anos tive contato com o trabalho do neocalvinista Abraham Kuyper que me fez entender o quanto caminhei longe do calvinismo por estas décadas de igreja. Vivi a infância numa igreja presbiteriana com usos e costumes próprios dos batistas. Não faça isso! Não faça aquilo! Depois, vivi a adolescência sobre forte influência das novas gerações de igrejas wesleyanas e pentecostais, enquanto na nossa igreja discutíamos os instrumentos permitidos durante o louvor.

Tudo isso e muitos outros detalhes fizeram da formação do jovem calvinista dos anos 80 e 90 algo muito duvidoso. Em certos assuntos, como no caso da predestinação, somos os durões esquisitos, em muitos outros, nos diluímos e nos rendemos ao modo evangélico padrão brasileiro, demonizando a cultura e fomentando embates contra a ciência e a arte contemporânea.

Porém, tudo se complicou nos últimos anos, quando a nova efervescência das guerras ideológicas entre esquerda e direita voltaram à pauta em terras tupiniquins. Neste contexto, o calvinista nebuloso e híbrido se mostrou despreparado. De um lado, uma porção de “calvinistas” se deixaram levar pelas ideias da cultura vigente e acabaram abandonando a fé ou a misturando com ideologias. De outro lado, outra porção de “calvinistas” miscigenaram sua fé com o movimento político vigente e inundaram mentes e feeds com uma nova postura evangélica de protagonismo político.

O fato é que ainda estamos tentando entender o que é ser cristão calvinista. Ainda resistimos a ideia de que podemos conversar de boa sobre a teoria evolucionista sem abalar nosso criacionismo, tomando uma cerveja ou um vinho, sem se embriagar. Sim, nós podemos, mas temos medo de parecer seculares demais. Nós podemos trabalhar em parceria com políticos progressistas, liberais e profissionais ateus competentes, pois entendemos que, pela graça comum, Deus também deu a eles a capacidade de tornar as coisas menos difíceis neste mundo complexo. Sim, nós podemos e devemos, mas, infelizmente, parece que gostamos do maniqueísmo da cosmovisão cristã pentecostal que nos diz que nada bom pode vir deste mundão.

Apesar disso tudo, posso dizer que estou gostando da aventura de me tornar cristão da cepa calvinista. Ao mesmo tempo, sinto um forte gelo na espinha quando observo irmãos calvinistas confundindo alhos, bugalhos e messias.

2 comentários sobre “O calvinista que ainda não sou

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