Se me vês com agrado…

O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo…
Disse Moisés ao Senhor: […] Se me vês com agrado, revela-me os teus propósitos, para que eu te conheça e continue sendo aceito por ti. Lembra-te de que esta nação é o teu povo”.
Respondeu o Senhor: “Eu mesmo o acompanharei, e lhe darei descanso”.
Então Moisés lhe declarou: “Se não fores conosco não nos envies.
Como se saberá que eu e o teu povo podemos contar com o teu favor, se não nos acompanhares? Que mais poderá distinguir a mim e a teu povo de todos os demais povos da face da terra? “
O Senhor disse a Moisés: “Farei o que me pede, porque tenho me agradado de você e o conheço pelo nome”. – Êxodo 33:11-17

Há um bom tempo, tenho refletido sobre o poder da predisposição nos relacionamentos. Não falo de preconceito, pois este é uma pré configuração negativa para com pessoas e grupos que nós nem conhecemos. Falo da predisposição que temos para com os amigos, conhecidos e familiares. Esta pré-configuração personalizada que desenvolvemos ao nos relacionar com o próximo. Ela pode ser positiva ou negativa, mas nunca neutra. Para algumas pessoas, temos uma predisposição positiva, ou seja, tudo que ela falar ou fizer é interpretado da melhor forma possível, pois seus antecedentes são positivos em nossa memória. Já para outros, nossa predisposição é negativa. Tudo que eles fizerem será interpretado da pior forma possível, ao ponto de recebermos até um elogio como uma crítica velada ou como falsidade.

Há também a percepção da predisposição dos outros, quanto a nós. Nas relações com nossos amigos construímos uma ideia de predisposição que o outro tem sobre nós. Para alguns, nossas palavras parecem carregadas de positividade e nos sentimos bem ao perceber sua empatia, que pode ser comparada a um bom perfume no ar. Já para outros, qualquer coisa que façamos parece ser errado, contrário e carregado de negatividade. Obviamente, nos sentimos muito mal ao perceber isso, mesmo entendendo que é só uma percepção e que isso pode não corresponder aos reais sentimentos do outro. Mas o fato é que, com o passar dos anos, nos tornamos peritos em ler entrelinhas, revelar silêncios e sentir maus odores de antipatia.

Fui além e passei a refletir sobre como formulamos nossa predisposição quanto a Deus. Construímos essa predisposição não só à partir daquilo que aprendemos teoricamente sobre Ele, mas também por meio das experiências negativas ou positivas que creditamos a Ele. Em alguns momentos, o vemos como nosso pai e protetor. Já em outros, o percebemos como um parente distante e indiferente. Da mesma forma, também construímos uma percepção da predisposição de Deus quanto a nós. Em algumas épocas da vida, nos sentimos os mais queridos dos filhos. Em outros momentos, nos sentimos como filhos desamparados. Por conta destas oscilantes percepções, muitas vezes nos julgamos como instáveis e fracos na fé.

Porém, ao ler o texto bíblico acima, percebi como Moisés ansiava saber qual era a predisposição de Deus quanto a sua vida Se me vês com agrado… – diz ele, com o desejo de obter um retorno, uma confirmação de que Deus ainda mantém uma predisposição positiva quanto a ele. Moisés deseja saber se ainda há empatia, se ainda há um bom grado de Deus por sua vida. Qualquer fiel que tenha passado por uma experiência de sofrimento, sabe exatamente o gosto do anseio de Moisés. Qualquer fiel gostaria de ouvir Deus confirmar, em alto e bom som: Farei o que me pede, porque tenho me agradado de você…”. 

A despeito de nossa fé instável, a despeito de todas as percepções e predisposições negativas presentes em nossa mente e em nossas relações interpessoais, nós, cristãos, olhamos para Cristo, certos de que por sua vinda e seu sacrifício, o Pai sussurra constantemente em nossos ouvidos: “Tenho me agradado de você e o conheço pelo nome”.  Que este sussurro seja suficiente em nosso coração. Que esta certeza também nos ajude a transformar nossa predisposição negativa quanto ao próximo. Que possamos olhar para o outro, não pelas lentes das nossas predisposições imperfeitas, mas pelas lentes perfeitas do amor de Deus, pois Ele nos vê com agrado.

Em Cristo,
Transformai-vos!

Um comentário em “Se me vês com agrado…

  1. Cara, muito bom! Obrigado pelos emails, cheguei nesse post por um email seu.. Gostei, muito mesmo! Sempre me identifico com seus textos, são muito práticos e cheios de Bíblia. Um abraço, que Deus continue usando sua vida!

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